O passo da criatividade
*Priscila Forone
O processo criativo na Era Digital é algo muito mais histérico que há dez anos. Explico. Recebemos informações por meio de diversas mídias, cada vez mais rápido, de forma mais intensa; colorida, densa. Um congestionamento de informações que se empurram e se espremem até que algumas alcançam algum lugar relevante em nossa memória.
Isso reflete também na expressão criativa fotográfica nesses tempos de digital. Faz-se muito mais fotos, muito mais erros x acertos, quantidade e mais quantidade para, na sorte, ter alguma qualidade. A criatividade pensada e inspirada se perde em meio a inúmeras tentativas apressadas de resultado de uma imagem aceitável. O cuidado para com o único click decisivo se perdeu lá nos idos da fotografia analógica. Pelo menos na maioria dos casos.
Penso no resultado maravilhoso de criatividade que poderíamos obter se fossemos saudavelmente seletivos nas informações e referencias que deixássemos nos “atingir”, aliviando o passo, para que o processo criativo não acontecesse num imenso frenesi.
Em meio a tantas informações, surgem milhões de possibilidades de conexões mentais que seriam melhor aproveitadas se tivéssemos o tempo para que elas acontecessem de maneira caprichosa, coerente, limpa. Até em momentos que escolhemos viver realidades diferentes, como em feriados ou férias, deixamos que essa sede e pressa de absorver o máximo de informação possível tome conta das nossas horas. Conhecer o maior número de lugares possível e fotografar tudo tudo tudo… como se nossa viagem pudesse somente existir pelas existências das fotos tiradas.
E se parássemos e deixássemos que os pensamentos apenas flutuassem em toda informação visual, olfativa e sensorial que temos em uma viagem? Certamente daríamos espaço para que conexões mentais fluíssem mais livres… e aconteceria então o tal do ócio criativo. No seu passo.
Para inspirar ainda mais esse momento criativo a passos mais lentos, sugiro retornar ao tempo em que a própria fotografia acontecia nesse passo. Vale a inspiração:
Fotografia e espontaneidade
*por Priscila Forone
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Olho pela janela a chuva cair pesada no final de tarde. Cinco minutos de intervalo no trabalho. A mente vai longe e se perde na espontaneidade da imaginação.
Essa sensação de mente espontânea lembra o que acontece quando viajamos. É uma sensação de liberdade de escolha. A possibilidade de tornar real algo que nasce na imaginação. É como ver linhas em um mapa, transformá-las em expectativa, em experiências e por fim, em lembranças.
Liberdade maior ainda é poder cultivar a espontaneidade das idéias. É conseguir enxergar quando se está no pensamento automático, “pegar as rédeas” destes pensamentos e direcioná-los para onde se deseja.
E quando estamos fotografando, podemos manter isso em mente e aplicar. É um exercício no mínimo interessante. No automático, fotografamos apenas registros e “provas” de que estivemos em determinado lugar… como as figurinhas do Zequinha; “Zequinha no Coliseu”, “Zequinha na torre Eiffel”, etc. Já quando tomamos as “rédeas” de nossa atenção e de nosso pensamento, fotografamos com mais percepção. Fotografamos detalhes que nos são curiosos. Lembranças que mostraremos e descreveremos para amigos na volta.
Existe então, uma fotografia que poucos viajantes experimentam, e essa sim é a fotografia totalmente espontânea, sem necessidade de mostrar algo real registrado. Essa fotografia também exige rédeas seguras, mas que direcionarão o fotografo /viajante à percepção pura do local visitado, expressando exclusivamente suas sensações. É a imagem da sua percepção, e não precisa ser mostrada ou explicada a alguém. É sua. É uma reprodução da sua mente, um diário íntimo, algo indescritível para qualquer pessoa além de você mesmo.
Experimente. Tente colocar sensações de sua viagem em forma de fotografia, é um ótimo diário de bordo de sensações.
*Por Priscila Forone, que abriu aqui o seu diário de bordo das sensações do Caminho de Santiago.
De costas para o mar…
*por Priscila Forone
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Alta temporada no litoral. Verão; mar, areia, praia. Movimento, engarrafamentos em direção à costa, todos no mesmo horário, mesma direção e literalmente, buscando um lugar para abrir o guarda-sol. Areia lotada. Uns jogam bola, outros correm, tomam sol ou banho de mar. O mar realmente atrai.
Muitas pessoas, quando pensam em litoral enxergam areia e água salgada. Passam a temporada entre a muralha de prédios da beira mar e a orla. Cidades na beira da praia provocam isso. Erguem-se edifícios que isolam a praia da paisagem para que moradores e veranistas possam ter o horizonte para si pelas janelas da sala. Coisas dos tempos modernos.
Sugiro aqui, um exercício. Quando chegar a uma dessas praias para passar a temporada, vire de costas para o mar e perceba: o que você vê? Se seus olhos pararem numa muralha de concreto, vá além, e procure ver o que há por trás da muralha.
Surpreendente. Não muito longe, como algo que antes era invisível e agora salta aos olhos, existe uma imensidão verde, muita mata, água e tanta diversão quanto a encontrada a beira mar. E, surpresa: também se chama litoral!
No Paraná, temos o privilégio de encontrar a serra do mar muito próxima à costa: a região litorânea vai do alto das montanhas até o mar. Nesta imensa faixa, onde os rios correm em direção ao mar, há a possibilidade de curtir a temporada sem ir de encontro a multidões. E a nova descoberta traz paisagens lindas; muitas cachoeiras, trilhas, animais e atividades esportivas, lazer e contemplação. E assim, o litoral do Paraná deixa de ser somente 98 km de faixa de areia e ganha 500 mil hectares de serra com montanhas, fauna, flora, parques e muitos lugares para se descobrir e desfrutar da natureza e de si mesmo!
Fica aqui a dica: no próximo feriado, que tal virar as costas para o mar e conhecer “outro” litoral!?
*Priscila Forone que sempre está em busca de novos “cantinhos” no litoral paranaense.
Amazônia – RDS Amanã
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por Priscila Forone *
Cada vez mais acredito que devemos cuidar com o que desejamos, pois pedidos se concretizam. E rápido. Para mim, Amazônia sempre foi um desejo, como uma lembrança de algo que ainda não se viveu. E tal desejo, sempre presente, me levou pela quarta vez para a floresta. Agora, integrando um grupo experimental de pesquisa para a possível implementação do turismo na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, entre os rios Japurá e Solimões.
Em viagens-desejo como esta, o aprendizado nos aguarda. Nem sempre é o que esperamos encontrar, mas certamente é o que precisamos vivenciar em determinado momento de nossas vidas. Em Amanã, isto estava claro. A experiência na mata foi fantástica. Presentes como grupos de ariranhas e mesmo a rápida avistagem de um gato maracajá (jaguatirica), superaram todas as expectativas.
O melhor presente, porém, veio por um caminho inesperado. Em plena mata, foram pessoas da comunidade que propiciaram o maior aprendizado.
Era a primeira vez que comunidades locais do Amanã receberiam turistas “cobaias”. Para nos receber, tiveram meses de preparo, oficinas, discussões. A expectativa era grande. Éramos como “visagens” que percorreram o imaginário daquelas pessoas e, naquele momento, nos materializávamos; turistas de carne e osso.
O primeiro contato foi tímido. Chegamos para o almoço; mesa linda arrumada ao ar livre em um trapiche de frente para o rio. Depois dos cumprimentos, descarregamos as bagagens e nos sentamos naquela mesa enorme, com apenas cinco cadeiras para o grupo. À mesa, reparamos que as pessoas da comunidade estavam em pé, aguardando que nos servíssemos. Para quebrar o distanciamento, chamamos o pessoal da comunidade para puxar cadeiras e se sentarem conosco. A partir deste momento, algo começou a acontecer. Turistas passaram a ter nome e personalidade. Os anfitriões; apelidos, “bacabas” (causos que dizem “essa aconteceu mesmo!”). Em cinco dias, acompanhamos o conhecimento simples e profundo de pessoas que aprendem na prática, a decifrar sinais da floresta e das águas.
Nas comunidades visitadas, o futebol de domingo é um dos acontecimentos mais esperados durante a semana. Uns jogam, enquanto outros torcem e comemoram. A pesca é outra atividade que envolve toda a comunidade. Alguns pescam, outros aguardam para fazer a limpeza e o preparo de 300 peixes, em três dias de pesca de manejo do pirarucu. Fazer junto, por todos, em “comum unidade”, torna as pessoas mais felizes. No processar a mandioca ou a andiroba, no construir o flutuante; trabalho de todos para todos. E percebendo tal alegria na realização de tarefas diárias, geralmente pesadas, é inevitável a comparação com o que vivemos hoje, nos grandes centros urbanos. Trabalhos individuais, nem sempre para benefício de muitos, sem tempo para isso ou para aquilo, conversando somente o necessário e “produtivo”.
As relações humanas soam escassas. Enquanto nas comunidades sabe-se que fulano é irmão de beltrano que mora pra lá do parente de cicrano, não conhecemos nossos próprios vizinhos.
Sentir essa “teia” que une uma comunidade, toca e aquece o coração. Sentir-se acolhido por essas pessoas é algo que faz lembrar aquela saudade de algo que não se viveu, mas que está dentro de nós, por instinto. A unidade.
*Priscila Forone que quer, em breve, levar grupos para experienciar a Amazônia!
Respirando Luz!

Paraty - foto:Priscila Forone
Cinco dias em Paraty, na sexta edição do Paraty em Foco (15 a 19 de setembro), um evento em que se respira o “desenho com a luz” em todas as formas. Luzes fixadas e recortadas nas mais diversas formas de fotografia: cor, preto e branco, papel fibra, algodão, projeções, lonas, adesivos, pequenas, gigantes, invertidas. E ainda; fotografia falada, discutida, argumentada, amada ou nem tanto.
Uma janela aberta, entre as tantas belas de Paraty, permitiu vários novos olhares sobre a fotografia num geral, e sobre a minha fotografia também. Tive a sorte de estar acompanhada de um dos editores do jornal onde trabalho, o que fez crescer ainda mais a discussão sobre a variedade de linguagens e pensamentos sobre a fotografia.
O que mais me chamou atenção no evento foi a grande distância existente entre os diferentes tipos de fotografia. De que maneira um suporte, um equipamento ou técnicas, a grosso modo similares, podem produzir tamanha variedade de formas. Tudo isso passando, obviamente, pelo “filtro” de pensamentos e criatividade de pessoas. E além, depois da criação fotográfica, outros muitos filtros e direcionamentos de reflexão sobre o que foi criado.
A fotografia abriu-se num leque mais amplo, levando a criação para além do filme. Verdadeiras obras de arte – em escultura – são finalizadas com trabalhos fotográficos, em que a obra acontece efetivamente e somente atrás da câmera. A obra de George Rousse, que trabalha com “land art” – termo novo para mim, bastante escutado no festival – é um exemplo (No caso de Rousse o trabalho é de intervenção sobre a cidade)
Um ponto em comum nas diversas palestras/entrevistas foi a questão de que a fotografia final – que vai para o museu ou para o jornal – é redutora da experiência toda, completa. A experiência em primeira pessoa nunca vai estar inteira na fotografia. Com tantas reflexões, imaginei o processo da criação fotográfica como uma ampulheta, em que o “clic” é a parte mais estreita. Todo o conhecimento anterior, em forma de grãos de areia, te direciona para fazer aquela imagem, daquela maneira. Depois dela feita, a experiência anterior vai se esvaindo da imagem e uma nova experiência vai surgindo – agora a partir da imagem – e novos conhecimentos e conceitos vão nascendo da imagem pronta.
Enfim, muita coisa para ser pensada e absorvida. Muita areia foi colocada na minha ampulheta e, com certeza, a imagem transformada pelas minhas reflexões não será mais a mesma depois de Paraty. Que essas mudanças possam continuar acontecendo de tempos em tempos, a cada participação em eventos como esse e a cada longa conversa sobre fotografia. Isso é o que nutre a criação fotográfica.
* que está redescobrindo a sua relação com a fotografia
Essência na montanha

por Priscila Forone*
Quando pensamos em natureza, caminhar na mata, fim de semana fora da cidade, normalmente nos vem à mente verão, sol, calor. Mas por incrível que pareça “alta temporada” não se refere apenas ao dias de férias de verão. Para os montanhistas e adeptos da escalada, o inverno é a melhor época do ano para praticar essas atividades. Como assim!?
Uma caminhada pela mata atlântica, conhecida também como “rainforest”(floresta chuvosa), já nos remete a algo úmido. Porém, o inverno na região da serra do mar é o período do ano em que menos chove. Sendo assim teremos trilhas mais secas, menos impacto durante as caminhadas, céu geralmente muito azul com poucas nuvens e muito menos mosquitos! E, sem tanto calor, a caminhada se torna bem mais agradável.
…mas o que me leva a subir uma montanha? Não é possível responder racionalmente, é uma questão de sensações.
Subimos montanhas porque elas “estão lá”. E durante a caminhada é possível entrar em um estado de meditação em que a concentração está direcionada à trilha e ao ambiente a sua volta. A respiração deve se adequar a cada passo. Trabalha-se com equilíbrio, força, observação, desafios e auto convencimento:“Estou cansado, mas sei que posso ir além”. Quando vamos à montanha fazemos uma viagem para dentro de nós mesmos. E melhor ainda, interagimos com que está próximo de maneira mais aberta, com companheirismo e sem máscaras. É como se voltássemos a um momento tribal, um deve cuidar do outro para que o grupo possa chegar a salvo no destino.
Numa caminhada na montanha vivenciamos o desapego e deixamos o ego um pouco de lado. Necessidades que acreditamos serem essenciais no dia-a-dia se tornam secundárias. Comer com a mão não tão limpa, sentar no chão, pegar na mão do companheiro de caminhada e pedir ajuda para atravessar um obstáculo, são coisas que não estamos acostumados mais a fazer com naturalidade. E são essas coisas simples que nos remetem à nossa natureza essencial.
Estar nesse meio ambiente desperta tais instintos e de certa forma nos liberta de conceitos incrustados pela sociedade urbana. Então vem a sensação de liberdade, tão dita por todos quando se fala em “aventura na natureza”. Tal liberdade está sempre latente dentro de nós, e se precisamos estar em um ambiente natural para senti-la de verdade, então vamos lá! Vamos nos permitir ser crianças um pouco , afinal, não é isso que elas fazem com naturalidade?
E depois de todos esses sentimentos de retorno ao que realmente somos e de onde viemos, lá nos primórdios, ainda somos presenteados, ao chegar ao cume, com uma vista maravilhosa de cadeias de montanhas. Nossos olhos vão até onde alcançam, sem nada interromper o horizonte. E então puxamos um suspiro profundo com ar fresco que nos abre o peito e o coração e não pensamos em mais nada, só sentimos a ponta de êxtase que é estar totalmente livre.
*Priscila Forone buscando as respostas sem antes saber as perguntas…;)
Redenção
por Priscila Forone*
Ok, me rendo aos blogs. Uma rendição prazerosa para se falar do que se gosta e se compreende intuitivamente.
Mais do que apenas dicas fotográficas de natureza/turismo, que este seja um canal aberto para trocas de experiência, usem e abusem dos comentários.
Vamos falar de fotografia não somente como técnica, mas como experiências de vida. Sobre o que vem muito antes, durante e depois dos décimos, centésimos ou milésimos de segundos de um clic.
Em épocas em que viajar é “ticar” lugares vistos , como em uma lista de supermercados, que tal nos focarmos em um conceito de “slow trip”? Degustando melhor cada lugar e vendo , por que não, a possibilidade de visitá-los mais de uma vez, com humores diferentes, luzes e estações do ano diversas?! Sugiro, para que possamos começar a nos sintonizar na mesma linguagem, que no início de cada leitura deste blog respire fundo, ponha seu coração e mente em um ritmo tranqüilo, pois é assim que se começa a fotografia de natureza. Seja onde for, no quintal da sua casa ou na Amazônia, no zoológico da sua cidade ou no alto de uma montanha, respire profundo para se equalizar com o que vai ser fotografado.
Eis o que sempre tenho em mente: Ser fotógrafo é conseguir despertar o sentimento das pessoas através das imagens captadas.
É sentir o ambiente que está sendo fotografado, e registrar também o que foi sentido, não só visto. E esse sentimento é a marca do fotógrafo.
Para que isso aconteça é preciso entrega, concentração e foco. Antes de sair clicando como um competidor de gincana em busca de pontos, esqueça por alguns instantes que está lá para fotografar. Esteja no ambiente simplesmente por “estar lá”. Observe cores, texturas, sinta cheiros, o vento, concentre-se nos sons e em como você se sente no lugar. Simplesmente esteja. Completamente e entregue à experiência. Caminhe sem compromisso e ainda sem a câmera diante dos olhos comece a imaginar e “pintar” mentalmente fotografias que você faria do local. Detalhes, luzes, paisagens. Só então pegue seu equipamento. Com calma e consciência. E se nesse meio tempo não se inspirou a fotografar, não se cobre, você está num processo criativo e artístico, a imagem virá até você e sairá de dentro de você a hora que ambos estiverem prontos. É claro que isso não significa que não deve continuar sempre tentando e instigando esses momentos a acontecerem! Lembre-se que embora a fotografia seja o motivo de sua jornada, ela é apenas um detalhe, o clic é o que te toma o menor tempo. E aqui começamos a nossa viagem, uma viagem nas experiências, com entusiasmo e sem esquecer nosso mantra: “respire fundo”.
* Priscila Forone que anda descobrindo a fotografia através do Yoga e vice-versa…

